A empregadora indenizará a viúva do eletricista morto ao fazer corte de energia para entrega
A Sexta Turma do Tribunal Superior do Trabalho rejeitou o recurso da DPJ Construções Ltda. contra o pagamento de indenização à viúva de um eletricista assassinado ao tentar fazer um desligamento de energia numa área dominada por organização criminosa em Paço do Lumiar (MA). A propósito, a morte ocorreu diretamente da atividade desempenhada pelo trabalhador.
Eletricista foi morto junto com colega
O trabalhador, de 27 anos, era empresário da DPJ e prestava serviços para a Companhia Energética do Maranhão (Cemar, atual Equatorial Maranhão Distribuidora de Energia). Em janeiro de 2019, ele e um colega foram, no carro da empresa, fazer um serviço de corte de energia elétrica no bairro Vila Natureza, na região metropolitana de São Luís (MA). Um homem e um adolescente, insatisfeitos com o corte, dispararam tiros nos dois trabalhadores, que morreram dentro do carro. Na ação, a família pediu indenização por danos morais e materiais.
O caso teve grande repercussão na imprensa local, e os dois assassinos foram condenados criminalmente.
A empresa, em sua defesa, sustentou que não tinha meios para evitar ou ter controle sobre o ocorrido, que classificou como caso fortuito.
Era local dominada por facção
A justiça de primeiro grau acolheu essa tese e indeferiu a indenização. Segundo a sentença, o empresário não foi vítima de choque, queda ou outra situação que pudesse ser enquadrada como acidente de trabalho típico. "Ele foi vítima da fúria de um cidadão inconformado com o corte do fornecimento de energia elétrica em sua residência, fato absolutamente imprevisível e inevitável", registrou a juíza.
O Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, porém, entendeu que, embora não esteja relacionado ao risco elétrico, a morte do trabalhador ocorreu em razão das funções exercidas por ele. Segundo o TRT, funcionários da empresa "comumente são mal recebidos e até ameaçados pelos consumidores visitados para corte de fornecimento de energia elétrica em suas residências ou estabelecimentos comerciais". Essa situação se agrava em área de risco acentuado, "reconhecidamente reduto de facções criminosas". No caso, o local foi dominado por uma facção conhecida como "Bonde dos Quarenta", e os dois criminosos fizeram parte do grupo.
A conclusão foi que as empresas tinham o dever de garantir a proteção à integridade física dos trabalhadores, e isso não foi constatado no processo. Elas foram, então, condenadas a pagar pensão mensal vitalícia de ⅔ do salário do eletricista até que ele completasse 75 anos e, ainda, indenização por dano moral à família de 10 vezes o salário.
Atividade de oferta com risco acentuado
No recurso de revista, o DPJ insistiu na tese da ausência de nexo entre o homicídio e a atividade desenvolvida por ela. Mas o relator, ministro Fabrício Gonçalves, não tem dúvidas de que o trabalhador morreu prestando serviço em função típica da empresa, "que explora atividade de risco, inclusive no que diz respeito ao desligamento de energia elétrica em localidade sabidamente perigosa".
Para o ministro, ainda que o homicídio tenha sido praticado por terceiro, o empresário morreu ao cumprir ordens do empregador. "O primeiro fator a contribuir decisivamente para a morte precoce do trabalhador e, consequentemente, para a cadeia causal, decorreu de ato praticado pela empresa", concluiu.
A decisão foi unânime.
Processo: AIRR-0016105-73.2020.5.16.0004