As vítimas econômicas da crise energética

No campo da economia, a primeira vítima de uma crise no abastecimento da energia elétrica é o investimento. Ele é o primeiro a sofrer cortes e interrupções até que retorne a segurança de que haverá oferta de energia necessária para o sucesso e expansão dos negócios.

No racionamento de 2001, a taxa de investimento sofreu uma brutal queda e se manteve assim até 2008, quando chegou a 19,1% do PIB. Hoje ela está abaixo de 18%. Para que o Brasil recupere sua capacidade de crescimento sustentável, seria preciso chegarmos a pelo menos 21% de investimentos sobre o PIB.

A segunda vítima econômica da falta de energia é a inflação. É com ela que a maioria dos investidores e analistas de mercado estão preocupados agora. A inquietação se dá porque não se sabe qual seria o impacto do risco atual no fornecimento da energia. Os cálculos para o índice de 2013 levaram em consideração, até agora, uma redução nas contas de luz prometida pelo governo. O que ainda dá uma inflação elevada, acima de 5%.

Para melar o cenário, basta que a redução não aconteça na magnitude esperada - nem precisa haver aumento das contas para pagar a energia das termelétricas, que é mais cara. O governo insiste que vai manter a queda de 20%, mesmo que seja preciso contar com o Tesouro Nacional para bancar a promessa. O problema é que essa solução significa mais gastos do governo, o que também prejudica a inflação e as decisões do Banco Central sobre os juros.

Depois do susto com os relatórios do Operador Nacional do Sistema (ONS) sobre o nível dos reservatórios das hidrelétricas, o mercado passou a quarta-feira refazendo contas e rodando seus modelos para recalcular, pelo menos,  a projeção dos grandes indicadores - como o PIB. As revisões devem aparecer logo, logo, sendo que algumas instituições já estão falando em crescimento menor do que 3% este ano se a crise se estabelecer.

A terceira vítima da crise energética é a confiança. Confiança nas lideranças, nas promessas, na execução e eficácia das soluções. Neste quesito o governo brasileiro anda meio capenga, depois do resultado do PIB de 2012 e da recente criatividade (ou manipulação) no trato das contas públicas. A confiança é geradora das expectativas - boas ou ruins, que têm papel fundamental nas decisões de consumo e/ou investimento.

Sem confiança não há investimento. Assim como sem energia não há investimento. E sem investimento não há crescimento, pelo menos não mais do que já conseguimos estimulando apenas o consumo. A realidade fica mais árdua se juntarmos, a todos os elementos anteriores, uma inflação pressionada e ascendente.